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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Projeto James Bond #13: 007 Contra Octopussy (1983)

Atualizado: 2 de abr. de 2023

007 Contra Octopussy

(Octopussy, 1983)

1983 foi um ano peculiar para James Bond, com dois filmes protagonizados pelo personagem estreando nos cinemas com um intervalo de quatro meses. A história envolvendo a desgastante batalha nos tribunais entre o roteirista Kevin McClory e a EON, empresa do produtor Albert Broccoli, pelos direitos de Thunderball (ou 007 Contra a Chantagem Atômica) eu conto na crítica de 007 Nunca Mais Outra Vez, filme não oficial que acabou perdendo para este 007 Contra Octopussy nas bilheterias. Apesar de contar com atrativos inquestionáveis como o retorno de Sean Connery e a direção de Irwin Kershner (que já havia comandado o elogiado Star Wars Episódio V – O Império Contra-Ataca), o público optou por seguir a cronologia tradicional, com Roger Moore aceitando reprisar seu papel mesmo tendo pedido para sair dois anos antes.

Afinal, os 56 anos de Moore pesavam não apenas para a demanda física das sequências de ação ou as cenas quentes com as bond girls, mas porque ficavam cada vez mais evidentes. E James Bond não deveria envelhecer, ao menos não na frente do público. No entanto, como o profissional que era, Moore manteve o padrão de suas atuações, beneficiando-se do humor mais carregado do roteiro. Vale lembrar que os produtores já haviam se acertado com James Brolin para sucedê-lo, antes de o imbróglio judicial envolvendo 007 Nunca Mais Outra Vez fazê-los voltarem atrás e desistirem de colocar um novato para competir com Sean Connery. Brolin, que estava treinando com a equipe de coreógrafos do filme quando foi comunicado por telefone sobre a desistência, teria sido o primeiro James Bond estadunidense, consumando uma ideia que já havia sido ventilada anos antes (Clint Eastwood foi outro a ser abordado pela produção).

Comprovando que a irregularidade é a marca registrada da franquia, Octopussy é mais uma continuação a romper com o tom do filme anterior, deixando de lado a atmosfera de 007 Somente Para Seus Olhos para abraçar a comédia sem a menor reserva. Com passagens que incluem James Bond numa floresta pulando de cipó a cipó ao som do grito do Tarzan de Johnny Weissmuller e uma degradante sequência em que o superespião se disfarça de palhaço (com direito a maquiagem e tudo) para se misturar num circo. Como já escrevi anteriormente, defendo a tese de que James Bond é mais adequado para tramas de espionagem (ele é um espião, ora), portanto, não vejo com bons olhos a ideia de colocá-lo para protagonizar gags, o que para minha infelicidade é exatamente o que acontece aqui.

Por mais que seja divertido vê-lo se passar por um defunto e assustar dois bandidos antes de nocauteá-los, esse não é exatamente o tipo de diversão que consagrou Moscou Contra 007 como o melhor da franquia, ou mesmo Goldfinger como o segundo. Esse é um problema causado apenas pelos roteiristas, pois Roger Moore já foi capaz de estrelar uma aventura sóbria do personagem (007 O Espião Que Me Amava), não por acaso seu favorito (e de muitos fãs de sua fase).

Mais uma vez inventivo ao exibir James Bond numa fuga espetacular de avião, a trama segue o modelo tradicional da franquia, colocando-o para recuperar um MacGuffin (um Ovo Fabergé, no caso) antes que caia em mãos erradas. Durante sua missão, perseguições de carro, lutas e fugas mirabolantes fazem parte do pacote, mesmo que estejam longe de representar o auge da série. A passagem envolvendo um Citroën, no entanto, é divertida o bastante para constar nos melhores momentos do filme.

Sem inovar, mas também sem inventar (como aconteceu com o Rio de Janeiro em 007 Contra o Foguete da Morte), a produção aproveita bem a Índia, cenário da vez, que cede paisagens exóticas (e o capanga Gobinda) para sequências como as já citadas anteriormente. Gobinda, inclusive, funciona justamente por manter-se realista, com exceção da “serra ioiô” da qual faz uso em uma determinada passagem. O filme também aproveita algumas marcas registradas do país asiático para interagirem com Bond (como engolidores de espadas e encantadores de serpentes). Além disso, Vijay Amritraj interpreta um dos aliados mais carismáticos desta fase de James Bond, rivalizando com o Columbo de Somente Para Seus Olhos.

Em contrapartida, a bond girl vivida por Maud Adams, retornando após aparecer no fraco 007 Contra o Homem Com a Pistola de Ouro, gera imensa expectativa após assumir a identidade de Octopussy, mas decepciona ao se revelar uma figura desinteressante e irrelevante para o andamento da história. Octopussy nada mais é do que um amálgama das características de outras bond girls, agindo com o batidíssimo desejo de vingança como sua motivação principal. Além disso, se inicialmente sugere se tratar de uma personagem forte e independente, logo se atira aos pés de Bond e se coloca numa situação da qual precisa ser resgatada.

O vilão Kamal Khan segue pelo mesmo caminho, exibindo características de outros antagonistas, como o fato de ser um trapaceiro (assim como Auric Goldfinger) e o objetivo de provocar uma guerra nuclear (aparentemente o sonho de quase qualquer um que se oponha a Bond). Khan é composto pelo francês Louis Jourdan como um playboy arrogante que por pouco não chega a espelhar a personalidade de Bond, preferindo trilhar a jornada da vilania associando-se ao General Orlov, encarado pelo roteiro como um mero lunático soviético, já que as intenções do projeto são colocar o General Gogol (Walter Gotell) para fazer oposição ao personagem e reforçar um discurso pacifista ao mostrar que também há soviéticos sensatos.

Além disso, o trio de roteiristas não deixa margem para interpretações, certificando-se de mastigar absolutamente toda a história para o espectador, seja através de diálogos expositivos (desta vez até Bond sucumbe a esse artifício ao adivinhar os planos do vilão) ou de momentos em que o espião acaba ouvindo informações importantes. Por outro lado, há pontos curiosos a serem apontados, como a decisão de assumir a idade avançada de Moneypenny ao invés de jogar seguro com os galanteios habituais, num momento revelador em que ao menos um personagem parece estar realmente envelhecendo.

Trazendo Robert Brown como o novo M (substituindo o finado Bernard Lee) e Rita Coolidge (queridinha das novelas da Globo) cantando a medíocre "All Time High" na abertura, 007 Contra Octopussy é uma aventura mais puxada para a comédia do que para a ação (apesar de contar com duas boas sequências aéreas), o que pode funcionar para espectadores esporádicos e fãs do lado jocoso de Roger Moore, mas que definitivamente não está entre os melhores capítulos da franquia.


NOTA 5


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